quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Casamento & Divórcio

O velho debate acerca do assunto “casamento” reacendeu-se quando o pastor Caio Fábio emitiu algumas opiniões sobre o assunto, onde ele assevera que o casamento não é instituído pela igreja, tampouco por uma assinatura feita em um cartório[1]. Depois disso, Augustus Nicodemos emitiu um texto-resposta no seu Blog, onde ele afirma a importância do reconhecimento público do casamento para que este possa ser validado[2]. Entre esses textos e conversas, outros assuntos relacionados foram tratados, como a questão do divórcio, que vem sendo debatido no meio religioso desde o tempo de Jesus. Alguns defendem o divórcio como sendo uma coisa comum, outros o aceitam somente em caso de adultério obstinado, e finalmente tem quem não o aceite de maneira alguma, como John Piper, que afirma que quem assim o faz deve ficar sem casar, pois casando novamente estaria vivendo uma vida de adultério contínuo (até mesmo quem casou e se separou na época da ignorância, isto é, de incredulidade)[3]. 


Não entender o divórcio acontece porque muita gente não entende o que é casamento segundo a Bíblia. Alguns pensam que o casamento só é válido quando é feito na igreja, como que voltando aos sacramentos da igreja Católica; outros afirmam que após a assinatura no cartório o casal está oficialmente casado diante de Deus. Todavia, nada disso é mencionado na Bíblia como sendo casamento.

A Bíblia diz que o casamento acontece assim: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn 2.24). Esse texto de Gênesis é tão forte que foi reafirmado por Jesus em Marcos 10.7-8. Logo, a Bíblia diz que o casamento é uma decisão de vida conjunta feita entre ambos, nada tendo a ver com cartório ou cerimônia realizada na igreja.

Esses dois últimos são apenas invenções humanas. O casamento no cartório existe porque no passado as mulheres eram abandonadas com uma mão na frente e outra atrás pelos maridos. Então, o governo decidiu estabelecer um contrato para que o Estado reconhecesse a união. Assim, caso o marido a abandonasse, o contrato previa a separação dos bens de forma igualitária e uma pensão mensal. Hoje em dia esse contrato ficou obsoleto, visto que as mulheres têm cada vez mais galgado espaço no mercado de trabalho e não dependem mais dos homens. Por isso, os casamentos "no papel" estão cada vez mais escassos na atualidade. E, espiritualmente falando, a certidão de casamento não tem valor algum diante de Deus. A cerimônia de casamento realizada na igreja tem menos valor ainda. É só uma festa. É tão importante diante de Deus quanto uma festa de aniversário. 

Não estou dizendo que o casal não deva realizar a cerimônia na igreja ou o casamento no cartório, o que estou dizendo é que não é uma obrigação. Não são coisas que vão fazer de você mais casado ou menos casado aos olhos de Deus. Não existe um único versículo bíblico que diga: assine um papel num cartório; ou ainda: faça uma festa na igreja.

Agora, voltando ao conceito bíblico de casamento, o texto diz que ambos se tornarão em um só. Obviamente, isso não ocorre através de se mesclarem artificialmente como irmãos siameses. A união que ocorre é a união de almas, e é entendendo isso que se entende toda a complicação do divórcio.

Quando um casal toma a decisão de unir-se de corpo e alma, inicia-se o processo do casamento. Isso mesmo, o termo correto é "processo de casamento". Não existe uma data específica onde o casamento ocorre, porque o casamento não é um fato único, mas sim um processo. O que pode existir é a data da decisão de casar-se, mas nunca a data do casamento em si. Inclusive, a Bíblia diz que essa decisão de casar deve ser selada com o ato sexual, que representa o encaixe da união de carnes, visto que nesse ato há um encaixe perfeito entre o órgão sexual masculino e o feminino.

Quando Isaque tomou Rebeca por esposa, não houve festa ou cerimônia de casamento. “Isaque conduziu-a até à tenda de Sara, mãe dele, e tomou a Rebeca, e esta lhe foi por mulher. Ele a amou; assim, foi Isaque consolado depois da morte de sua mãe.” (Gn 24.67). O selo da decisão de ambos foi o ato sexual, tanto é que só quando Isaque levou-a à tenda e a possuiu é que o texto bíblico diz que Rebeca “lhe foi por mulher”, e não antes disso. A figura do ato sexual como união é tão forte, que Paulo chega a dizer: “Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne.” (I Co 6.16). Assim, vemos que após a decisão de ficar juntos ser selada pelo ato sexual, inicia-se o processo de casamento.

O processo de casamento é a união afetiva que vai se desenvolvendo entre dois seres humanos. Quando as pessoas se casam, passam a compartilhar sentimentos, alegrias, prazeres, intimidades, dores, falhas, e todas as internalidades inerentes ao ser humano. A intimidade de um casal-casado é tal, que o marido do livro de Cantares chama a esposa de "irmã", que é o equivalente poético ao "uma só carne" apresentado pelo Gênesis. Obviamente, esses afetos compartilhados - aos quais damos o nome de amor - se materializam em atos práticos, dos quais o mais importante deles para o casamento é o sexo - mas disso falaremos em outra oportunidade. 

Aqui já podemos tirar uma lição muito importante. Existem casais que se casaram no papel e fizeram festa na igreja, mas que, pela falta dos requisitos mencionados anteriormente, nunca foram um casal de verdade. Ao passo que existem casais que nunca casaram no papel, mas que são casais verdadeiramente casados. 

Assim, aos casais-casados - os que verdadeiramente têm passado pelo processo de casamento -, é uma tortura muito grande sofrer o processo de divórcio. É de fato uma dor equivalente à separar um pedaço da carne do corpo.


Quando vamos separar um pedaço de “carne morta” do nosso dedo, conseguimos fazê-lo facilmente e sem dor, pois a carne está morta. No entanto, quando uma parte viva do nosso corpo é decepada deliberadamente, traz muita agonia.


Há algumas raras situações em que decepar uma parte do nosso corpo vai ser a solução menos ruim do que deixá-la lá. Conheci um homem que machucou a perna em um acidente de moto, e surgiu no machucado uma bactéria que poderia se alastrar por todo o corpo. Ele demorou a ir ao médico e, ao chegar ao hospital, para conter essa situação a perna dele teve que ser decepada. Perder a perna seria algo ruim, mas pior ainda seria perder a própria vida. Há casos em que tem que se escolher o mal menor.

O mesmo se aplica ao divórcio. Nunca existe o divórcio que é bom e aceito por Deus. O que existe são concessões em casos que ficar casado traria mais dor em longo prazo do que a separação imediata.


Jesus tratou desse tema em Mateus 19. Alguns fariseus chegaram e perguntaram se “era lícito repudiar a mulher por qualquer motivo”. Fazer isso era uma prática comum naquela época. Haviam homens perversos ao ponto de repudiar a esposa pelo simples fato de ela não cozinhar conforme ele desejava, dentre outros motivos banais semelhantes a esse. Jesus, então, cita Gênesis 2.24, mostrando que o ideal é que a união seja permanente. Os fariseus apelam para a permissão dada por Moisés em Deuteronômio 24.1-4. No entanto, Jesus diz que essa permissão só foi dada por conta da dureza do nosso coração. Deus sabia que haveriam casos em que um dos lados poderia pôr o cônjuge numa situação de opressão, seja ela física ou emocional, por isso nos deixou essa concessão da separação.


Jesus, então, faz a aplicação do princípio dado por Moisés ao contexto em que eles estavam inseridos e disse que essa permissão do divórcio só era válida quando o homem estava sendo oprimido por uma esposa adúltera.

Naquele contexto, repudiar uma mulher era semelhante a deixá-la minguar na pobreza e solidão, pois dificilmente outro homem aceitaria casar com uma mulher que havia sido repudiada. Pensando nisso, Jesus afirma que a única situação que justificaria tal abuso seria se a mulher fizesse um abuso maior, adulterando. Ele nem dá essa liberdade para a mulher caso o adúltero seja o homem, pois não precisava. Naquela época era inimaginável uma mulher deixar seu marido por qualquer razão que fosse, pois seria vista como prostituta e sofreria terríveis preconceitos.

O objetivo de Jesus com esse mandamento era evitar que o ser humano - em especial as mulheres, que eram as que sofriam mais com isso naquele contexto - não sofressem as terríveis dores do divórcio. Não era apenas para cumprir uma moralidade vazia, tinha um objetivo, e o objetivo era o bem do próximo.

Hoje em dia a aplicação desse princípio pode ser diferente. As mulheres têm galgado cada vez mais espaço no mercado de trabalho para ter seu próprio sustento. O preconceito para com os divorciados inexiste e ambos podem seguir a vida de forma equilibrada. Portanto, para mim, não é só em casos de adultério que se justifica o divórcio em nosso contexto. Porém, mesmo assim, meu conselho vai ser sempre dizer que só se deve haver divórcio em situações de opressão em que ficar casado traga mais dor do que se houver a separação. Enquanto houver condições de salvar o casamento, a luta pelo perdão e reacendimento do amor deve ser contínua, especialmente quando já há terceiros envolvidos – falo de filhos.

Portanto, meus irmãos, não sejamos legalistas. A lei existe por causa do homem, e não o homem por causa da lei. Lutemos pelo padrão bíblico, ele sempre vai ser o melhor para a vida do homem. Todavia, quando o padrão bíblico não puder ser cumprido, sejamos misericordiosos.



“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (Jo 2.1)

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[1] FÁBIO, Caio. Caio Fábio afirma que casamento não necessita de legalização civil. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=Fh9S-JvfMzg>. Último acesso em 12/01/2014.

[2] NICODEMUS, Augustos. Afinal, casamento é de Deus ou apenas uma invenção humana? Disponível em <http://tempora-mores.blogspot.com.br/2013/10/afina-casamento-e-de-deus-ou-apenas-uma.html> Último acesso em 12/01/2014.

[3] PIPER, John. Divórcio e Novo Casamento: Uma Declaração. Disponível em <http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/divorcio_novo_casamento_piper.htm>. Último acesso em 12/01/2014.

2 comentários:

  1. A pessoa que se une a prostituta,e se torna uma só carne com ela não poderá se casar com outra pessoa?

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    1. Como eu disse no texto, o sangue de Cristo nos perdoa de todo o pecado quando há genuíno arrependimento.

      Só não volte a fazer isso em respeito a sua esposa e para o bem da sua própria alma. O adultério tanto faz mal para o cônjuge - por conta da dor da traição - como faz mal para aquele que o pratica.

      Deus nos criou para termos apenas um parceiro sexual durante a vida toda. Quando esse padrão é quebrado, sempre traz consequências - embora Jesus ofereça perdão.

      Portanto, meu amado, tenha paz! Só não volte a cair nesse buraco novamente.





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