domingo, 6 de dezembro de 2015

Endeusando Pregadores

“O conselho que Aitofel dava, naqueles dias, era como resposta de Deus a uma consulta; tal era o conselho de Aitofel, tanto para Davi como para Absalão.” (2 Samuel 16.23)

Esses dias estava lendo a rebelião de Absalão contra o rei Davi, seu próprio pai, e esse verso me chamou atenção como nunca havia chamado antes. Fiquei refletindo o quão perigoso é alguém achar que existem tais pessoas que, qualquer pronunciamento, qualquer opinião, qualquer interpretação feita é verdade como se fosse palavra de Deus.

Existem pregadores que têm uma capacidade argumentativa tão grande, uma retórica tão aguçada, um nível filosófico tão elevado, que por assim serem são tidos por detentores da verdade divina. E todo o povo passa a os divinizar e a segui-los cegamente.

Muitos desses pregadores são até bem intencionados e não querem assumir o papel de deuses na vida das pessoas. Porém, as pessoas os têm como tal.

O texto diz que o conselho de Aitofel era tido como palavra de Deus por Davi e por Absalão, e não pelo próprio Aitofel. Assim, existem pregadores que se endeusam, e existem pregadores que são endeusados pelos outros.

A cegueira das pessoas chega a um nível tal, que seguem ensinos totalmente contrários ao que Deus diz, sem ao menos perceberem isso. Nos versículos anteriores Aitofel aconselha Absalão a cometer adultério com as mulheres do próprio pai para que isso fortalecesse seu reino. Assim ele fez, e o conselho pareceu dar resultado, mas isso não significa que foi algo agradável aos olhos de Deus.

Ora, nem eu mesmo quero que alguém me siga cegamente. Se o que eu falar estiver concorde com a verdade em Jesus, a palavra deve ser acolhida, mas não por ser propriamente minha, antes por estar de acordo com o evangelho da verdade.

É por isso que as pessoas precisam ter um mínimo de conhecimento do evangelho, para terem um parâmetro de comparação e assim não se deixarem levar por ensinos falsos. O que mais alimenta a indústria de falsos mestres é a ignorância do povo em relação a palavra de Deus.

Quando Paulo e Silas chegaram a Bereia e começaram a anunciar a Palavra nas sinagogas dos Judeus, o texto diz que estes “receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (Atos 17.11).

Não devemos desprezar quem prega a Palavra, mas devemos simplesmente ter um mínimo de senso crítico para verificar se o que está sendo dito está de acordo com o ensino de Cristo ou não.

Não sou do tipo que diz que só se deve escutar pregadores da religião A, ou doutrinadores da escola B. Ao contrário, defendo que as pessoas devem ter maturidade para receber de tudo, e reter o que é bom (cf. 1 Ts 5.21). Eu mesmo desde novo na fé leio material de todos os tipos de autores, desde católicos como Agostinho de Hipona, chegando aos reformadores, passando pelos puritanos, até aos teólogos da atualidade. Nenhum deles são donos da verdade para mim, não os vejo como Aitoféis. Mas todos têm algo bom para ensinar, e esse “bom” é o que eu busco reter para mim.

Gostaria também de encorajar os pregadores de boa fé a pregarem apenas Jesus, conforme Paulo ensinou que se fizesse: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.” (1 Co 2.1,2).

Já ouvi pregações onde os pregadores davam aula de história, política, palestras de autoajuda, adestramento nas dogmatizações da igreja, enfim, falavam de tudo, menos de Cristo e seu ensino. Com isso nem me refiro aos malucos que fazem as pessoas pularem, caírem, deitarem e rolarem por meio de indução psíquica, pois para mim eles nem podem ser chamados de pregadores. Estou falando de gente boa de Deus, que querem ser fiéis no ensino, mas acabaram indo por outras veredas. Esses precisam reencontrar o foco do ensino da Palavra.

Eu, por exemplo, quando prego, tenho como único objetivo construir a mente de Cristo em meus ouvintes. É fazê-los entenderem mais acerca da obra de Cristo no que se refere às maiores subjetividades da salvação, para que possam descansar na graça e no amor de Deus. E fazê-los entender o evangelho na forma prática, para que saibam caminhar de forma saudável nessa vida, conforme Jesus caminhou.

Meu ensino é essa simplicidade, e quem já me ouviu sabe que assim é. Nunca vou ser tido como um grande teólogo, nem vou escalar o topo dos ministérios eclesiásticos nas maiores igrejas e nos maiores seminários do Brasil. Isso sinceramente não me atrai. Na grande maioria desses lugares só tem gente ensinando o que as pessoas nem querem nem precisam ouvir.

Em suma, devemos saber que não existem pastores ou pregadores perfeitos. Portanto, olhemos para o único Pastor das nossas almas, aprendamos dele, que é manso e humilde de coração. Aos demais, os tenhamos com todo respeito, mas não o coloquemos como Aitoféis em nossas vidas.


“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.36)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Descriminalização das Drogas

Em minha opinião o dever do Estado é o de regular as ações humanas em relação ao próximo. Isto é, se alguém bate em seu carro, o Estado tem o dever de obrigar o indivíduo causador do dano a lhe ressarcir. Se o sujeito não paga a pensão alimentícia, ele deve dar conta disso ao Estado.

O governo não deve se preocupar em regular o que um indivíduo consciente faz com o seu próprio corpo. Se alguém quiser fumar cigarro até morrer de câncer no pulmão, o que o Estado tem a ver com isso?

Na própria Lei de Moisés estava escrito: “não matarás”, porém não se encontra nenhum mandamento de “não cometerás suicídio”. Cada um tem o direito soberano de fazer o que desejar a si – desde que isso não prejudique o próximo.

Na questão das drogas o que deve ser feito é a criação de políticas que restrinjam o uso de alucinógenos em locais públicos, para preservar a integridade das pessoas que estão ao redor. Se alguém tomar maconha e sair por aí, deve ser penalizado tanto quanto alguém que se embriaga e sai por aí dirigindo – ainda que não cause acidente deve haver a penalização, posto ser um risco em potencial. Quem quer tomar droga, que tome em propriedade privada e por lá fique até passar o efeito do alucinógeno.

Além disso, deve haver orientação às pessoas para que saibam os riscos daquilo que estão inserindo no próprio organismo – de forma semelhante aos avisos postos em carteiras de cigarro.

Enquanto o país não tiver condições de realizar esse tipo de fiscalização e orientação, a droga deve continuar proibida. Eu mesmo já fui assaltado por pessoas totalmente drogadas que poderiam ter ceifado minha vida. Mas, por outro lado, eu sei que existem pessoas em bairros nobres que usam maconha antes de dormir para reduzir a ansiedade. Como sabemos que existem as duas alas, a droga deve continuar proibida até que possamos amadurecer a ideia e criar políticas públicas sobre o assunto em cada setor da sociedade.

No entanto, o que eu acima disse, eu disse à sociedade. É óbvio que Deus não quer isso para o seu povo. Para Ele, todo e qualquer vício é pecado, pois escraviza a alma. Deus quer que sejamos livres de tudo para que possamos segui-lo completamente, sem estarmos presos às coisas desse mundo.

Quem é viciado em televisão, internet, esportes, e jogos, não é menos escravo espiritualmente do que aquele que é viciado em drogas. As únicas diferenças são as consequências à saúde e o impacto social, que é maior sobre o usuário de drogas. Mas, diante de Deus, todos os vícios atrapalham a comunhão com Ele.

Eu, embora não use drogas, tenho tendências a vários vícios socialmente “normais”, mas que eu sei que podem atrapalhar minha caminhada com Deus. Então, o padrão que eu uso é evitar totalmente os vícios que podem destruir meu corpo e, como aconselhou Paulo, usar das demais coisas com espírito de moderação (cf.Fp 4.5; 1Tm 1.7), sem se deixar dominar por nenhuma delas (cf. 1 Co 6.12).

Sempre tendo como objetivo buscar melhorar e almejar que os nossos desejos sejam o mesmo de Jesus: “Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (João 4.34). Conforme nossa maturidade espiritual vai progredindo, nosso apego a algumas coisas – mesmo que “normais” – vão perdendo o sentido e vai-se dando espaço para a mesma motivação que houve em Cristo, que é ter como combustível de vida fazer a vontade do Pai.
 
Todavia, o povo Evangélico precisa entender que não podem obrigar as pessoas a seguirem seus conceitos de fé por meio da força do Estado. O próprio Senhor Jesus disse que seu reino não era desse mundo. Ele nunca foi tentar convencer Pilatos, Herodes, ou César de impor princípios de fé ao povo. Se os princípios são de fé, devem simplesmente ser praticados pela fé, e não por imposição.

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22.21)

sábado, 5 de setembro de 2015

O espírito nicodêmico

Nicodemos foi um homem da seita farisaica, maioral entre os judeus, e mestre em Israel (cf. João 3).  Para mim, a maior marca de Nicodemos era o receio de ser visto como um seguidor de Jesus em detrimento dos seus cargos na sinagoga.

Em João 3, em sua primeira aparição Bíblica, ele vai ter com Jesus escondido, de noite. Após isso, em João 7, quando os fariseus discutiam acerca da possibilidade de prender Jesus, Nicodemos até tenta defendê-lo: “Acaso, a nossa lei julga um homem, sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?” (vs. 51), mas ao ser contraditado pelos demais, silenciou.    

Nicodemos conhecia Jesus, e acreditava que Ele era enviado por Deus (cf. Jo 3.2), mas tinha medo de enfrentar a sinagoga para defendê-lo. Ele sabia que defender os ensinos de Jesus no meio da religião constituída sempre resultava em exclusão. A religião institucional geralmente não suporta Jesus. Nicodemos não estava preparado para abdicar daquilo que a religião lhe oferecia para segui-lo.

Ele era considerado mestre em Israel, certamente lia todos os livros dos teólogos mais conhecidos do passado e de sua época; devia conhecer a história e a tradição do seu povo como ninguém. Também era considerado maioral dos judeus, sua vida moral certamente era irrepreensível aos olhos humanos. Tudo isso era incrível para os homens, mas não realizava nada diante de Deus. Ele servia para ser tudo para os homens, mas não servia para ser discípulo de Jesus.

O discípulo quando contraditado, por medo, pode até negar, mas depois chora amargamente arrependido. O discípulo não se vende, preferindo ser fazedor de tendas a comer o pão da falsa religião. O discípulo, embora tenha muito conhecimento teórico, prefere reputar tudo como refugo, caso esses ensinos não estejam ligados a Jesus. O discípulo prefere ser caluniado, apedrejado e preso pelas verdades do evangelho que se vender à doutrina dos anciãos.

Se Nicodemos foi salvo? Talvez tenha sido, caso tenha se arrependido e decidido encarnar a verdade do evangelho de fato, sem se preocupar com o que os outros pudessem pensar. Mas a salvação dele não é o que quero discutir aqui. O que quero mostrar é que o espírito nicodêmico pode atacar qualquer um que começa a conhecer a verdade em Jesus, especialmente os que passaram vários anos da vida presos à sequidão de alguma religião vazia.

Podemos ver a diferença clara entre o discípulo e os que se deixam levar pelo espírito nicodêmico na história do cego de nascença, em João 9.

Naquela ocasião Jesus curou um homem cego de nascença, algo inaudito em Israel. Todos deveriam reconhecê-lo como Senhor e se alegrar pela cura realizada, correto? Porém, Jesus realizou essa cura supostamente “quebrando” um mandamento. Ele curou a pessoa em dia de sábado, e isso chegou aos ouvidos dos fariseus.

“Por isso, alguns dos fariseus diziam: Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tamanhos sinais? E houve dissensão entre eles.” (João 9.16).

Como os fariseus se preocupavam mais com letras do que com vidas humanas, não aceitavam o fato de que Jesus era o Messias por ter feito algo que segundo eles não se devia fazer em dia de sábado. Só acreditariam na cura se o cego e seus familiares testemunhassem.

Quando a pergunta foi feita ao ex-cego, evidenciou-se que ele se tornara de fato discípulo, pois destemidamente confessou Jesus: “De novo, perguntaram ao cego: Que dizes tu a respeito dele, visto que te abriu os olhos? Que é profeta, respondeu ele.” (vs. 17).

Todavia, os fariseus não acreditaram no homem, e chamaram seus pais: “Então, os pais responderam: Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo. Isto disseram seus pais porque estavam com medo dos judeus; pois estes já haviam assentado que, se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga.” (vs. 20-22).

Os pais, embora tendo visto o poder de Deus na vida do próprio filho, se deixaram levar pelo espírito nicodêmico e tiveram medo de perder o espaço que tinham na sinagoga.

Hoje as igrejas em geral também negam os ensinos do evangelho – embora usem o nome de Jesus; ou são liberais ao ponto de não seguirem coisas que estão escritas, ou são tradicionais ao ponto de acrescentarem doutrinas e tradições humanas ao que está escrito. A Palavra, todavia, diz: “não ultrapasseis o que está escrito” (1 Co 4.6); “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.” (Gl 1.8).

A questão é: você que percebe que sua igreja não está andando conforme Jesus, vai se vender à doutrina humana da igreja, ou vai lutar pelo evangelho da graça de Deus? Você está acomodado ao que a sinagoga oferece e não acha que é importante lutar pela real verdade do Evangelho?

É chegada a hora de você decidir se você é um Nicodemos ou se é realmente um discípulo de Jesus.

“Eu [Jesus] vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que [acham que] veem se tornem cegos.” (João 9.39).

sábado, 11 de julho de 2015

A Escravidão do Condicional

“Será, pois, que, se, ouvindo estes juízos, os guardares e cumprires, o SENHOR, teu Deus, te guardará a aliança e a misericórdia prometida sob juramento a teus pais” (Dt 7.12)

Quantas vezes não vemos no Antigo Testamento o condicional “se” relacionado a bênção resultante da guarda dos mandamentos? “Se guardares meus mandamentos, meus estatutos... se, se, se...” De forma que são vários os textos em que vemos Deus prometendo a herança aos que guardarem os mandamentos. Todavia, todos nós sabemos que não deu certo. Não é que Deus tenha falhado, mas que o condicional contido na lei estava enfermo por conta da carne. A lei de Deus é pura, santa e boa. Eu é que sou carnal. Se sou carnal nunca conseguiria cumprir a condição que a lei estabelece para poder receber a herança. Tentando receber a promessa pelo condicional da lei foi que o povo de Israel caiu, caiu, e caiu.

Porém, quatrocentos e trinta anos antes de Moisés dar o condicional ao povo, Abraão já tinha recebido a promessa por meio da graça. Em nenhum dos textos em que Deus aparece aos patriarcas há o condicional. Deus simplesmente chamou a Abraão e disse: “em ti serão benditas todas as nações da Terra”. E ponto final. Não há “se” nas promessas feitas a Abraão. “Porque, se a herança provém de lei, já não decorre de promessa; mas foi pela promessa que Deus a concedeu gratuitamente a Abraão.” (Gl 3.18). Simplesmente a fé lhe foi imputada para justiça assim como é hoje para com os verdadeiros filhos de Abraão, que são os da fé (cf. Gl 3.7).

A tristeza é que o condicional dos mandamentos ainda existe hoje no coração do povo. Os cristãos creem que a salvação é pela fé, mas logo depois vem o “se” que gera para a escravidão. Outro dia estava vendo um debate num Blog acerca do divórcio, onde alguém chegou a dizer que os divorciados só serão justificados por Cristo se manterem-se em condição de celibato, pois casando novamente estariam em adultério contínuo. Depois outro disse que as pessoas são salvas por Cristo, mas só se estiverem indo à uma igreja. Ora, todos esses assuntos são importantes e devem ser tratados com responsabilidade. O que não pode é dizer que eles são critério para a salvação. Não se pode usar obras como pré-requisito para o recebimento da herança, caso contrário cairíamos novamente na escravidão do “se” de Moisés.

O problema é que o povo lê a Bíblia com o mesmo espírito condicional da Lei – de querer alcançar a herança vindoura por meio de méritos próprios. Assim, cumpre-se em nossos dias o que Paulo escreveu sobre os judeus da circuncisão:

“E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado.” (2 Co 3.13-16)

Esse mesmo véu está posto sobre os olhos de muitos líderes religiosos de hoje. Assim cumpre-se o que Jesus falou: “São cegos guiando outros cegos”. O véu continua impedindo a visão da graça de Jesus na vida de muitos. O ser humano sempre lê a Bíblia buscando nela uma forma de barganhar com Deus, infelizmente. Por isso esquecem que o condicional das obras foi totalmente destruído por Jesus na cruz. Toda a condição de obras para a salvação foi cumprida por Ele, e nós a alcançamos por meio da fé, conforme Abraão.

A verdade é que não há “se” na caminhada de fé. “E para que servem os mandamentos que Jesus nos deixou?” – Ora, servem para nos ensinar a viver melhor aqui na Terra. A caminhada do ser humano sem os ensinos de Jesus tende para a destruição em todas as áreas da vida, seja emocional, espiritual, familiar, ética ou psicológica. O ensino de Jesus é vida em si, para si, e para o próximo. Não os cumprimos para sermos “mais” aceitos por Deus. Os cumprimos porque é o melhor para nós. E quando não os seguimos – pois somos pecadores – não perdemos a salvação por conta disso, mas naturalmente receberemos as consequências terrenas do nosso erro. Quem rouba é preso; quem mente é descoberto; quem guarda mágoa corrói a própria alma; e assim por diante.

O único condicional válido na nova aliança para receber a herança da nova Jerusalém é a condição de aceitar a obra salvífica de Jesus pela fé.


Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10.9)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Não Julgueis

“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (I Co 10.12).

O que os evangélicos mais pregam é que “todos são pecadores carentes da graça de Jesus”, mas eles mesmos precisam acreditar mais no que eles pregam, porque alguns pensam que estão excluídos desse “todos”.

Nós pecamos a cada instante, não há quem pare de pecar. Alguns pensam que estão em pé porque o padrão de justiça deles é o mesmo que o da sociedade que os cerca. Para eles, não roubar, mentir, matar e trair é o bastante para estar “em pé”.

No entanto, para Deus, quando você usa a impressora do seu trabalho para imprimir coisas pessoais, ou usa o tempo do seu trabalho para fazer uma ligação telefônica que seja, você já está roubando; para Deus, quando você breca seu carro no foto sensor, você já está mentindo ao governo; para Deus, quando você sente raiva do seu próximo, você já o está matando no seu coração; para Deus, quando você olha com desejo para outra pessoa que não seja seu cônjuge, você já está traindo.

Veja que até nas coisas do padrão mais simples – que é o padrão que nos cerca – nós caímos constantemente e deliberadamente. Imagine se eu fosse traçar as profundezas de todo o desígnio maldito do coração humano comparando-o com a justiça plena e perfeita de Deus!

Por isso a verdade é que nós não caímos, nós somos caídos! Só estamos de pé diante de Deus na pessoa de Jesus Cristo por meio da fé, e nada mais. “Se observares, SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?” (Salmos 130.3).

Mas, de fato, existem muitas pessoas que “pensam” estar em pé pelas próprias forças. E, por isso, vivem de julgar os outros pobres fracos, que “caem” em pecados públicos. Hipócritas!

Assim, a implicação de tudo o que resumidamente quero dizer nesse texto é: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37).

Jesus mandou não julgar justamente porque ninguém tem uma vida digna o bastante para julgar quem quer que seja. “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos.” (Tg 2.10). Não importa qual pecado você comete durante o seu dia, para Deus ele ofende tanto quanto qualquer outro cometido por quem quer que seja.

Assim, nós não devemos chegar perto de um irmão sofrido para julgar ou para expô-lo, mas tão somente para perguntar em como podemos ajudar a tira-lo do buraco em que ele se meteu, exortando-o em verdadeiro amor para que o mesmo se restaure. “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2).

Infelizmente o cristianismo está tão obcecado em ler letras, que acaba esquecendo-se de pratica-las. Os “cristãos” podem – aos olhos da religião – ser invejosos, caluniadores, fofoqueiros e terem o coração entupido de maldades, mas se estiverem indo ao templo todo final de semana, vestindo roupas de acordo com a moral da igreja, e lendo livros, são tidos como espirituais e capazes de julgarem os outros “pobres pecadores".

Às vezes eu penso que a arrogância de alguns evangélicos não tem cura. Mas eu confio no poder do Evangelho em transformar corações. Por isso, nunca deixarei de pregá-lo. Um dia talvez essas pessoas busquem se parecer com Jesus. Talvez comerão com publicanos e pecadores; andarão com meretrizes; ajudarão os pobres, e serão muito mais que pessoas vazias que se assentam para ler livros e falarem mal dos ”pobres mundanos” que precisam receber deles o “amor”.

Por enquanto eles continuarão pensando que estão em pé. Eu, pecador que sou, continuarei crendo pela fé nAquele que está em pé em meu lugar, Jesus Cristo.

“Tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme.” (Romanos 11.20)

domingo, 17 de maio de 2015

O único Deus verdadeiro

Soa um pouco arrogante querer afirmar que o único Deus verdadeiro é o que eu sigo, não é mesmo? Mas mesmo assim resolvi escrever esse texto, visto que não há espaço para dois Deuses, pois a própria essência Divina não permitiria a existência de outro.

Existem muitas pessoas por aí que tentam derrubar a ideia de haver um Deus único e verdadeiro por afirmarem que existem outras religiões, outros deuses, outros livros sagrados, outras histórias miraculosas; por que então deveríamos acreditar que somente o cristianismo é o correto?

Portanto, pretendo provar que o Deus verdadeiro só pode ser o que é Pai de Jesus, e isso sem usar textos bíblicos. Para isso usarei alguns pressupostos básicos que a maioria das religiões tem acerca da Divindade.

Deus é justo

Partindo do pressuposto que Deus é justo, e sabendo fatidicamente que o homem é mal, chegamos a conclusão que todos devem ser punidos por Ele, caso contrário isso anularia a sua justiça plena e o faria deixar de ser Deus. Para Deus ser Deus tem que haver derramamento de sangue, e sem derramamento de sangue não há remissão.

Porém, se a morte do indivíduo pecador resolvesse a situação, não haveria problema. No entanto, assim como Deus é infinito, sua justiça também é. Portanto, não só a morte aqui na Terra, mas um castigo infinito espera pelo pecador na eternidade.

Deus é amor

Sendo Deus amoroso e misericordioso, Ele quer salvar todos os homens da ira vindoura. Todavia, não há como o homem salvar a si mesmo. Não importa que vá viver num mosteiro afastado da sociedade, que ore diversas vezes ao dia, que faça penitencias, que exploda bombas no próprio corpo, que faça o bem ao próximo, nada disso compra a Deus. A justiça dele continua precisando de sangue para ser satisfeita.

Por isso, Deus proveu o sacrifício de alguém infinitamente bom, para assim apagar sua ira infinita. Ele mesmo se sacrificou em nosso lugar na pessoa do seu Filho, e ressuscitou – pois era impossível a morte deter o autor da vida.

Deus ainda assevera que todo esse sacrifício ocorreu no coração dele antes da fundação do mundo – embora tenha se cumprido na história da humanidade em Jesus, o Deus encarnado. Caso contrário, os que tivessem morrido antes da vinda de Jesus não poderiam ser salvos. Assim, antes do mundo ser mundo, Deus já havia sacrificado o Cordeiro em nosso lugar. Sem Cruz nem mesmo existiria criação!

Deus é absurdo, por isso requer fé

Você realmente acreditou quando eu disse no começo do texto que essa história fazia sentido e poderia ser provada? O Deus verdadeiro não pode fazer sentido ao ser humano. Deus precisa ser absurdo para poder ser Deus. Se Deus pudesse ser alcançado pela razão humana ele não seria Deus. Um ser finito como nós não pode alcançar um Ser infinito.

Por isso, Ele nunca será alcançado pelos filósofos desse século, tampouco pelos cientistas que tentam provar a existência dele. Ninguém poderá se gloriar diante de Deus. O Deus verdadeiro não é alcançado por méritos próprios, mas tão somente pela fé.

É por isso que o Caminho é estreito, visto que para se chegar a Deus o homem precisa se desarmar de todo o orgulho que existe no próprio coração e admitir que por si mesmo jamais conseguirá chegar ao Deus verdadeiro. Somente a fé no Cordeiro agrada a Deus.

Você acha que é fácil aceitar que somente o Cordeiro pode salvar? – É dificílimo! Isso quebra todo o orgulho humano. Por isso, quem quiser segui-Lo precisará negar a si mesmo.

Eu havia dito que não usaria textos bíblicos, mas nem por isso a mensagem acima deixa de ser Evangelho. Essa é a Boa Nova do Evangelho: que o Cordeiro se sacrificou em nosso lugar e está consumado!

E o que acontece depois de crer nessa mensagem? Ora, você começará a usufruir dessa salvação aqui na Terra. Aos que creem, o céu já começa a ser céu aqui. Isso porque Jesus irá lhe ensinar a ter vida abundante sobre a Terra. Para isso você precisará observar o modelo de vida que Ele nos deixou, e isso está registrado na Bíblia. Mas, isso é assunto para outro artigo, no qual eu evidenciarei a veracidade da Bíblia. Por enquanto ficamos por aqui. Tetelestai!

sábado, 9 de maio de 2015

A busca por um amor

“Deus é amor. E amor é o que todo ser humano quer. Portanto, quando alguém quer amor/amor, tal pessoa quer Deus, mesmo que não saiba.”

Há um tempo eu ouvi essa frase e fiquei intrigado refletindo sobre o quão real ela é, por isso resolvi pesquisar sobre o assunto. Como sabemos, não há nada que mostre melhor as profundezas do sentimento humano que a expressão através da música. Navegando pela internet cheguei à música “Segredos”, do Frejat:

“Eu procuro um amor
Que ainda não encontrei
Diferente¹ de todos que amei
Nos seus olhos² quero descobrir
Uma razão para viver
E as feridas³ dessa vida
Eu quero esquecer...”
É uma linda poesia proveniente de um coração sincero buscando algo que a alma deseja. Ora, mas essa é só uma, das muitas músicas existentes por aí que refletem a necessidade do ser humano de algo ou alguém que os possa completar, que também costumamos chamar de amor. O problema é que os amores oferecidos nessa vida nem sempre são os melhores; e mais, nem um deles podem saciar completamente essa nossa necessidade. É por isso que na busca desse amor muitos caem de cabeça nesse mundo e acabam quebrando a cara. Outros nem sempre quebram a cara, pois de fato conseguem colocar o coração em alguma pessoa ou em algum hobbie bom. Mas quando a ilusão passa, mesmo estando casado com a melhor pessoa do mundo, mesmo tendo adquirido todas as conquistas materiais que o coração possa desejar, o vazio continua. Conseguiu-se tudo, mas parece que não se tem nada. Aí começa o processo de desilusão com a vida e os pensamentos suicidas.
As pessoas, por terem almas eternas, também precisam de um amor eterno. Deus é esse amor. Por isso, eu tenho algumas considerações a fazer sobre a música do Frejat à luz do livro de Isaías:
1 – “Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” (Isaías 49.15). Com certeza Ele é diferente de todos os outros amores que você amou, posto que quando se ama a Deus, nem um outro amor precisará vir ocupar esse lugar. Antes, todos os outros amores desta vida estarão abaixo dele, e sobre o senhorio desse Amor maior, que supera até mesmo o amor das mães.
2 – Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.” (Isaías 45.22). Se você decidir parar e realmente olhar para Ele, você perceberá que não há outro amor pelo qual valha a pena viver. Só Ele é cheio de misericórdia, terna compaixão, bondade, e capaz de entregar a própria vida por nós.
3 – “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” (Isaías 53.5). Não há ferida causada por essa vida que não possa ser tratada pelo amor do nosso Senhor. Muitas dessas feridas são causadas por nossos próprios erros, e outras pelos erros dos outros, ou até mesmo pelas adversidades da vida em si. Mas Ele não está procurando culpados, Ele está apenas oferecendo perdão e graça pela fé a quem quiser receber.
Reflita nisso,
Nele, em quem não há Segredos, visto que tudo nos foi revelado em Cristo para a salvação de todo aquele que crê. 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Como devemos adorar a Deus?

Quando o assunto é adoração por meio de cânticos, as pessoas tendem a ser bastante extremadas nos seus posicionamentos – ou são totalmente liberais ou totalmente conservadores. Por isso, quando o assunto está em debate os nervos ficam à flor da pele. Os dois lados começam a usar de malabarismos nos textos bíblicos e evocam cada qual seu teólogo preferido, para assim embasar seu ponto de vista. No entanto, o que poucos sabem é que Jesus já tratou desse tema enquanto esteve nas regiões de Samaria e conversava com certa mulher samaritana.

“Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.” (João 4.20-23)

É interessante observar que pouco antes Jesus estava falando de outros assuntos com a mulher, mas de repente ela corta o assunto assim que reconhece que Ele é profeta (vs. 19), e decide tirar uma dúvida doutrinária com Ele.

O que acontece é que os samaritanos costumavam adorar a Deus no monte Gerizim, visto que a prática de adorar em montes era adotada desde a época de Moisés. “Eu serei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte” (Êxodo 3.12). Já os judeus entendiam que o local de culto era única e exclusivamente o templo. Todavia, a maioria dos samaritanos só aceitavam os escritos que fizessem parte do Pentateuco, por isso não entendiam que o templo era o local correto de adoração naquela época. Dessa forma, existia um debate ferrenho entre os “teólogos” samaritanos e os “teólogos” judeus. Certamente essa dúvida doutrinária permeava a cabeça dessa samaritana há muito tempo, e ela viu em Jesus a oportunidade de sana-la.

Jesus sabia que as duas interpretações estavam erradas, tanto a dos samaritanos quanto a dos Judeus. Ambas eram doutrinas superficiais. Os judeus não viam o templo como uma tipificação de Jesus – pois se assim o fizessem estariam certos em ali adorar – antes idolatravam apenas o lugar; as paredes, as portas, o chão. A mesma coisa acontecia com os samaritanos, que achavam que pelos simples fato de estarem em um monte estavam realmente adorando a Deus.

O Senhor, então, responde que não é o estereótipo da adoração que vai fazer com que seu culto ou seu louvor cheguem aos ouvidos de Deus. A única coisa que Ele quer é ser adorado em espírito e em verdade.  Em espírito porque o adorador deve estar ligado espiritualmente a Deus por meio de Jesus Cristo, e em verdade porque Deus se alegra com um coração verdadeiramente sincero perante Ele.

O que as pessoas não entendem é que a adoração acontece muito mais de dentro para fora do que de fora para dentro. “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51.17)

Então, Deus não se importa com nenhum tipo de exterioridade? Tanto faz o local, os instrumentos, ou a melodia usada? – Tenho plena convicção de que para Deus essas exterioridades não importam. Mas, tudo isso deve ser ponderado com responsabilidade, especialmente quando o louvor estiver sendo feito em grupo – pois o povo de Deus deve estar sempre promovendo um culto racional por conta da consciência do próximo, caso contrário diriam que estão loucos (cf. 1 Co 14.23).

No entanto, de uma coisa tenho certeza, não adianta louvarmos a Deus à capela estando com o coração distante dele, bem como não adianta impormos um emocionalismo artificial por meio de instrumentos se a verdadeira emoção promovida pelo Espírito Santo não estiver presente. Deus quer sinceridade independentemente da presença ou da falta de instrumentos, sejam eles quais forem.

Mas, afinal, qual a maneira correta de adorar a Deus? À maneira tradicional ou à maneira liberal? No monte ou no templo? Ora, a resposta já foi dada por Jesus: adore a Deus em espírito e em verdade. Porque é nessa mesma sinceridade que o louvor dos pequeninos é aceito diante dele (cf. Mt 21.16), e é assim que Ele quer ser adorado. 

sábado, 21 de março de 2015

CONTATO

Para enviar sugestões de temas, fazer perguntas, ou até mesmo para aconselhamento na vida espiritual, mande um e-mail para fundamentosdoevangelho@hotmail.com 

Os e-mails serão respondidos de acordo com a ordem de chegada.

"Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo." (I Co 3.11)

sábado, 14 de março de 2015

Usos e Costumes

"Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo" (Colossenses 2.8).

O que eu chamo de “Usos e Costumes” são as práticas consideradas boas pela sociedade a qual a igreja está inserida. Essas práticas, por serem aceitas pela maioria, se transformam na moral daquela sociedade e acabam por influenciar o que a igreja prega.

Se o ensino dessas boas práticas ficasse apenas na forma de conselho ou de opinião pessoal do pregador, seria algo saudável. Todavia, o problema realmente começa quando essas práticas são postas como se fossem Palavra de Deus dentro das igrejas.

Primeiro porque escraviza o povo sob um jugo a qual Cristo jamais impôs sobre eles. Os Fariseus “atam fardos pesados e difíceis de carregar” (cf. Mt 23.4), enquanto que o julgo de Jesus é suave, e o seu fardo leve (cf. Mt 11.30).

Segundo porque não necessariamente o que é visto como prática boa pela sociedade é de fato boa aos olhos de Deus e faz bem ao homem. A prática da proibição do casamento no Clero, por exemplo, foi uma prática imposta pela igreja católica, mas que se iniciou dentro do movimento filosófico gnóstico. O gnosticismo ensinava que toda a matéria era má, e que qualquer desejo da matéria (nossa carne), era ruim. Assim, para os gnósticos, ter um nível de espiritualidade elevado era equivalente a não atender aos desejos por comida desejosa aos olhos, por isso eles comiam apenas legumes; o desejo sexual, ainda que dentro do casamento, era proibido, por isso muitos até decepavam o próprio órgão sexual.

Essa última prática entrou com muita força dentro da igreja após os anos trezentos, posto que muitos homens de grande vulto as defendiam, dentre eles o principal era Agostinho de Hipona (não pensem que ele não tinha “embasamento bíblico” no que ensinava).

Hoje ainda herdamos muito adoecimento de alma em função dessa doutrina de demonização do sexo. Muitas pessoas sinceras de coração na sua fé se sentem impuras ao praticar sexo com seu cônjuge se não for para procriação; os jovens, nas igrejas mais tradicionais, se sentem impuros ao praticarem masturbação em função da proibição imposta. Nada disso está na Bíblia, mas o que não falta é gente fazendo malabarismos com a Escritura para embasarem seus ensinos humanos.

Para entendermos mais profundamente o perigo dessas doutrinas humanas, precisamos analisar onde tudo começou.

No Éden, Deus proibiu que o homem comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Porém, vendo Eva “que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gn 3.6). Aqui a humanidade relativizou o que Deus disse que era bom e colocou em seu lugar o que o próprio homem achava ser bom. Assim, o que era bom de verdade passou a ser visto como mau e o que era mau passou a ser visto como bom – no caso em questão o fruto passou a ser agradável aos olhos de Eva, mesmo Deus tendo dado a proibição.

Portanto, na queda nasceram todas as diferenças culturais existentes ao redor do mundo no que se refere ao que é certo e errado, uma vez que Eva tornou relativo. Para os índios, não há problema usar pouca roupa, mas para os islâmicos, quanto mais se cobrir melhor; para os portugueses beber vinho é completamente normal, mas para os brasileiros mais conservadores isso é quase um crime, ainda que feito moderadamente conforme recomenda a Palavra.

São incontáveis as diferenças contidas nas práticas de cada cultura. Mas, qual a maneira correta de encararmos essas diferenças? – Para entendermos isso precisamos nos voltar para a Palavra de Deus, fazendo exatamente o que Eva não fez.

1 – NÃO ADICIONAR NADA AO QUE DEUS DISSE

Nós podemos seguir todo tipo de regra que acharmos que fará bem para nossa caminhada de fé. Eu mesmo tenho várias regras que balizam o meu procedimento. Por exemplo, até o momento eu não pretendo usar tatuagem porque eu acredito que isso criaria uma barreira para que eu pregue o Evangelho no meio que eu convivo, posto ser um meio mais conservador. Não existe mandamento de Deus no Evangelho acerca desse assunto. Portanto, sou livre para escolher. E eu escolhi não fazer tatuagem.

Mas, se outrem quiser fazer uma tatuagem, eu posso no máximo dar a minha opinião sobre esse assunto. A decisão final, no entanto, será da pessoa e não será pecado caso ela decida por fazer a tatuagem.

Isso porque se eu forçar alguém a seguir os meus costumes, especialmente fazendo uso de malabarismos bíblicos para embasar meu pensamento, estarei adulterando a Palavra de Deus, fazendo-a dizer algo que ela nunca disse. Além disso, quando tento forçar alguém a seguir minhas leis, lanço sobre este um peso a qual Jesus prometeu tirar quando disse “vinde a mim...”. O único peso que as pessoas têm a obrigação de levar é o de Jesus, que é suave e leve, posto ser baseado apenas no Evangelho.  

Eva, quando perguntada pela serpente acerca do mandamento de Deus, disse que Ele havia falado: “mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais.” (Gn 3.3). Deus nunca disse que ela não deveria tocar. Ela adicionou isso ao mandamento. Nela nasceu o que posteriormente Jesus veio a chamar de “doutrina dos anciãos”, e o que Paulo também chamou de “doutrina de homens”.

A motivação de Eva em ter adicionado esse mandamento era clara: o medo da tentação. Ela provavelmente pensou que ao incluir o “não tocar” estaria mais protegida da tentação da serpente. É também baseado no medo da tentação que os pastores criam doutrinas que, aos olhos deles, servem de proteção para a tentação. O problema é que essas “cercas protetoras” não funcionaram no passado com Eva, e também não funcionarão hoje.

Um pastor, certa vez, estava pregando a proibição de alguém ir ao cinema, porque lá havia a possibilidade de se cair na tentação sexual, visto estar no escuro perto de outra pessoa. Essa “cerca” que ele criou realmente funcionou em parte. Os jovens da igreja dele nunca fizeram sexo no cinema, mas faziam em todos os outros lugares, porque o desejo contido no coração não pode ser freado por cercas humanas, mas só pelo Espírito Santo de Deus agindo através do Evangelho, e nada mais!

Não podemos tirar nem adicionar nada ao Evangelho, pois se assim fizermos incorreremos em grave erro. Paulo ensinou: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.” (Gl. 1.8).

Jesus disse para tomarmos cuidado com o “fermento dos fariseus” (cf. Lc 12.1). O fermento é o elemento responsável por inchar a massa, e era exatamente isso que os fariseus faziam, pois “em vão adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.9). Fermentar o Evangelho nada mais é que inchá-lo com doutrinas e preceitos que são apenas mandamentos humanos. Para Deus isso é apenas uma adoração vã, que não serve de nada.

Em Eva esse comportamento começou, passou pela época de Jesus, e está presente entre nós até o dia de hoje. No entanto, o livro de Apocalipse diz que quem adicionar ou tirar algo da Palavra de Deus, este sofrerá as devidas consequências por essa atitude (cf. Ap 22.18-19). Portanto, temamos, para que não venhamos a colocar nossos pensamentos individuais como sendo Palavra de Deus.

2 - AS COISAS SÃO MÁS?

O principal erro dos adoecidos pela síndrome de Eva é acharem que o problema está nas coisas, e não nas pessoas.

“Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura.” (Romanos 14.14).

A sociedade separa as coisas entre ruins e boas pela associação que a consciência do coletivo faz a respeito dessas coisas. Se um objeto está associado a coisas ou situações boas, será tido como uma coisa boa. Porém, se um objeto está associado a algo ruim ou foi usado por pessoas que trouxeram dano à sociedade, quem o usar será visto como alguém ruim, mesmo que este não seja.

Por exemplo, as tatuagens são vistas como coisas ruins porque os seus principais percussores foram os hippies. Logo, quando uma pessoa do bem faz uma tatuagem, os que viveram na época hippie farão uma associação que os levará a pensar que aquela pessoa é ruim, mesmo sem ao menos conhecê-la. 

Todavia, o que faz uma pessoa ser ruim não é o que está do lado de fora, mas sim o que está do lado de dentro. Não é uma tatuagem, estilo de cabelo, ou adereços que vão fazer alguém pecar mais ou pecar menos.

O método do conceito preconcebido de julgar alguém é condenado por Deus. Ele mostra isso quando prefere escolher o pequeno Davi em detrimento dos seus fortes irmãos de guerra. Porque “o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração.” (cf. 1 Sm 16.7). Jesus também disse: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça.” (João 7.24).

Em Mateus 15 alguns religiosos da época de Jesus reclamaram do fato de os seus discípulos não seguirem a tradição de lavar muitas vezes as mãos antes de comer, ao que Jesus respondeu: “não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem. Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos não o contamina.” (Mateus 15.11,19-20).

Aqui Jesus destrói a ideia de que as coisas que estão do lado de fora possam nos contaminar e interferir do lado de dentro. O que faz com que nós pequemos contra Deus e contra o próximo é o pecado que está contido no coração de todos os seres humanos.

Falar que adereços, usos, ou costumes causam decadência na vida espiritual do homem é um erro. Mas, infelizmente, esse pensamento ainda existe em nosso meio numa forma tão sutil que dificilmente conseguimos perceber.

Por exemplo, nós muitas vezes debochamos do costume dos católicos fazerem o sinal da cruz ao passar em frente a alguma igreja católica, mas em todas as refeições os evangélicos são doutrinados a fazer uma oração, ainda que nem mesmo Jesus tenha feito em todas, posto não ter orado quando ressuscitou e comeu peixe junto aos discípulos (cf. Lc 24.41-43).

Nós rimos quando os católicos andam com um terço no pulso ou uma cruz como colar ao redor do pescoço, mas esquecemos de que a maioria dos evangélicos acredita que Deus se importa com a frequência de vezes que eles vão ao templo durante a semana.

No fundo, só se mudam as formas, mas todas as religiões têm suas crendices de que costumes ou objetos podem te fazer ser alguém mais ou menos espiritual. A recomendação de Paulo sobre esses assuntos é:

“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade.” (Cl 2.20-23).

O que mais me chama atenção no texto acima é a impotência dessas cercas humanas em face ao desejo contido no coração. Como diz o texto, essas cercas têm até alguma aparência de sabedoria. É visualmente bonito ver alguém rigoroso asceticamente falando; todavia, nada disso tem poder algum contra a sensualidade. Não importa se a saia da irmã é longa ao ponto de ir até o calcanhar, se ela não cuidar do próprio coração ela vai acabar traindo seu marido; não importa se você assiste ou não filmes violentos, se você não cuidar do próprio coração você poderá violentar alguém de uma forma ou de outra. As cercas humanas são como pedaços de papel que são facilmente traspassados pelos dardos inflamados do maligno.

Todavia, é importante ressaltar que embora as coisas de fora não contaminem o interior do homem, elas podem avultar um desejo específico que lá já estava contido. O que quero dizer é: algumas pessoas têm dificuldades específicas que podem ser avultadas através de um uso ou costume, especialmente quando a consciência ainda não está completamente amadurecida no Evangelho.

Por exemplo, ao final de uma pregação minha sobre esse assunto – aplicada a realidade das crianças – uma mãe veio me perguntar o que fazer com a filha que gostava muito de assistir um desenho sobre bruxas. Ora, veio-me à mente a época da minha meninice onde eu gostava de assistir desenhos de luta, mas isso nunca me influenciou a ser um garoto violento. Por outro lado, na minha adolescência eu assisti uma série que falava sobre coisas sobrenaturais e eu comecei a me interessar pelo assunto, quando menos percebi estava lendo sobre ocultismo e quase entrei na prática.

A lição que eu tiro é que não devemos proibir, mas devemos observar se essas coisas estão influenciando nossos filhos ou a nós mesmos. Caso a influência ocorra de forma contínua, devemos imediatamente tomar uma ação preventiva e corretiva.

O que estou dizendo é: se, por exemplo, você tem/teve problemas relacionados a alcoolismo, e se ao passar perto de um bar você percebe que o desejo aflora novamente, porque passar perto de lá? Crie uma “cerca” e entenda que preventivamente você deve passar longe de bares. Todavia, como falei anteriormente, essa cerca não vai resolver o problema que está contido no coração, ela só vai lhe dar uma proteção temporária para que você possa tratar o problema em sua raiz. Caso não seja tratado, as crises vão vir, porque o desejo continuará instalado e acumulado no coração, e vai chegar um momento em que a cerca vai se romper e você se renderá a esses desejos novamente.

Há ainda um último tema importante de ser analisado no que se refere à neutralidade das coisas: como disse Paulo, as coisas não são ruins de si mesmas, mas nós podemos fazer mau uso delas.

Em todas as épocas a igreja resolveu demonizar coisas que, segundo Paulo, não são de si mesmo impuras. E vimos que, segundo Eva, isso ocorre pelo medo da tentação da serpente, mas que nada serve como resolução do problema, pois o mesmo está contido no coração.

No exato momento em que escrevo esse livro, as alas mais tradicionais da igreja estão demonizando um jogo de realidade aumentada chamado Pokemon Go. Esse tipo de demonização não é novidade pra mim. Na época da minha conversão, em meados de 2007, a igreja a qual congregava condenava o uso de uma rede social chamada Orkut. Na época dos meus pais, década de 80/90, a televisão era a demonizada da vez.

Isso sempre aconteceu em todas as épocas. Os motivos dados e os malabarismos bíblicos para provarem que essas coisas não eram de Deus eram os mais variados e bizarros que se possa imaginar.

No entanto, embora saibamos que as coisas não sejam ruins de si mesmas, nós podemos fazê-las ruins para nós se não soubermos usá-las devidamente.

Uma pistola pode ser mal usada nas mãos de um bandido, mas pode ser bem usada por um cidadão que quer tão somente proteger sua família; uma rede social pode ser mal usada quando um marido a usa para procurar outras mulheres, mas pode ser bem usada simplesmente quando alguém quer manter amizades antigas e compartilhar boas mensagens com sua rede de contatos; um jogo, seja ele qual for, pode ser mal usado e se transformar em um vício nas mãos de alguns, mas se bem usado pode trazer um momento de diversão entre a garotada.

Portanto, façamos bom uso de todas as coisas que estão ao nosso redor para nosso próprio benefício e, se possível, até mesmo para o benefício do nosso próximo. Isso é o “fazer tudo para a glória de Deus”, conforme Paulo.

3 – MINHA LIBERDADE EM RELAÇÃO AO PRÓXIMO

Quanto maior a liberdade, maior deve ser a nossa responsabilidade. Quem tem lido e entendido tudo o que venho escrevendo nesse livro está apto a viver toda a liberdade que há em Cristo sem sofrer nas mãos da dogmatização da igreja, do moralismo superficial da sociedade e, sobretudo, sem dar ocasião à carne.

No entanto, essa nossa liberdade no sentido prático precisa passar pelo crivo da consciência do nosso próximo. Isso é importante pelas seguintes razões: A) poderíamos aniquilar a consciência dos mais fracos na fé; B) nossa liberdade poderia ser uma barreira na pregação do Evangelho para os descrentes.

A)    Consciência dos mais fracos

Em 1 Coríntios 8 o Apóstolo Paulo escreve acerca de uma situação equivalente ao tema em que estamos tratando. O que acontece é que alguns crentes mais experientes daquela cidade estavam comendo carnes de animais que haviam sido sacrificados aos ídolos pagãos. Muitas vezes, após o sacrifício ser feito, a carne do animal era vendida no mercado local, e esses crentes compravam. Outras vezes, eles inclusive aceitavam convites de amigos ou familiares para jantar nos templos desses ídolos e, naturalmente, comiam da carne dos sacrifícios que haviam sido feitos (vs. 10).

Paulo não condena diretamente a atitude desses crentes. Afinal, a prática de sacrificar um animal a um ídolo é equivalente a nada, visto que “sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus. Porque, ainda que há também alguns que se chamem deuses, quer no céu ou sobre a terra, como há muitos deuses e muitos senhores, todavia, para nós há um só Deus” (1 Co 8.4-6).

A prática do sacrifício não deixava a carne do animal impura, porque esses deuses não existiam e, portanto, não poderiam amaldiçoar nada. Assim, aos olhos de Deus não havia pecado em alguém comer dessas carnes que foram sacrificadas aos ídolos.

Ter esse conhecimento mostrava o quão inteligentes eram aqueles crentes da cidade de Corinto. Porém, “o saber ensoberbece, mas o amor edifica.” (vs. 1). Esse amor que edifica é o que estava faltando no coração de alguns daqueles cristãos.

Ora, haviam crentes recém-convertidos no meio deles que tinham saído há pouco tempo desse meio pagão. E, para eles, essas carnes sacrificadas aos ídolos estavam realmente consagradas aos deuses daquelas regiões. Pela falta de tempo de caminhada na fé cristã eles ainda não tinham maturidade para entender o que os demais entendiam.

Então, Paulo diz: “se alguém te vir a ti, que és dotado de saber, à mesa, em templo de ídolo, não será a consciência do que é fraco induzida a participar de comidas sacrificadas a ídolos? E assim, por causa do teu saber, perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu.” (1 Co 8.10-11).

Ao verem os mais maduros comendo desse tipo de carne, os demais também seriam induzidos a comer, mas depois ficariam com a consciência pesada, achando que haviam cometido pecado por terem comido.

Assim, Paulo conclui: “E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo.” (1 Co 8.13).

É importante ressaltar que esse cuidado que devemos ter não é somente com os irmãos recém-convertidos, mas também com os que pelo tempo decorrido deviam ser mestres e não são. A esses, devemos ensinar em amor para que eles entendam a liberdade que têm em Cristo.

No entanto, se mesmo após o ensino eles resolverem se endurecer para essas verdades, não teremos mais que termos medo de escandalizá-los. Teremos sim, que enfrentá-los, posto terem conhecido a verdade e estarem se endurecendo a ela.

Devemos lembrar que Jesus quebrou muitos paradigmas sociais da sua época e escandalizou a muitos. Pelos relatos dos evangelhos, Ele fazia questão de curar as pessoas aos sábados; ao curar leprosos, Ele fazia questão de tocá-los; se relacionava com gentios – pessoas de outras nacionalidades; comia carne e bebia vinho com publicanos e pecadores; enfim, acredito que após ensinar ao povo acerca da verdade, ele a praticava, ou, usava da sua liberdade para gerar escândalo e ser questionado por eles para, então, ensinar a liberdade do evangelho. Assim, acredito que Ele fazia em amor, visando a edificação do próximo.

Portanto, tenhamos cuidado ao exercer nossa liberdade em Cristo na frente de irmãos mais fracos. Imagine que alguém acabou de sair de uma vida de farras e bebedices e se converteu ao Evangelho, seria correto tomar um copo de cerveja na frente dele? As chances de aniquilarmos a sua consciência seria enorme!

A atitude correta a se fazer seria abrir mão da liberdade de fazer isso na frente dele e, ao mesmo tempo, ensiná-lo aos poucos que não há proibição de Deus a esse respeito no Evangelho. Afinal, o próprio Jesus era chamado de “bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Lc 7.34). Mas que, por outro lado, há severas proibições acerca da embriaguez (cf. Lc 21.34; Ef 5.18; 1 Pe 4.3).

E por que é proibida a embriaguez? Vamos pôr em prática o que temos aprendido até aqui? – Ora, se alguém bebe até perder o controle das próprias atitudes, este vai ser um risco em potencial a ele mesmo e ao próximo, ferindo assim o princípio eterno do amor. Veja como é fácil! Com esse tipo de entendimento podemos discernir o que é pecado sem precisarmos seguir dogmaticamente as cartilhas religiosas. Digo, agora sei que a embriaguez é pecado não somente porque está escrito ou porque o pastor disse, mas porque eu entendo que é o melhor para mim e para o próximo.

B)    Barreira para o Evangelho

Muitas vezes a nossa liberdade em Cristo pode se constituir em escândalo para os descrentes – embora que as coisas que escandalizam um descrente sejam infinitamente menores do que o que escandaliza um religioso.

Em Mateus 17, por exemplo, quando perguntaram se Jesus pagaria as duas dracmas do imposto, Ele prontamente decidiu pagar, mesmo sem ser necessário que o fizesse. Ora, Jesus era da descendência de Davi, o mesmo que derrotou Golias e recebeu duas coisas como recompensa: a filha do rei Saul e a isenção de impostos para toda a sua casa em Israel (cf. 1 Sm 17.25).

No entanto, Jesus abriu mão dessa liberdade, tudo isso “para que não os escandalizemos” (Mt 17.27). Ou seja, para que não mudassem de assunto usando isso contra Ele enquanto estivesse em um debate; ou para que não usassem isso como desculpa para desqualificar sua mensagem, o que poderia levá-los a fechar o coração para o Evangelho. Afinal, como um sonegador de impostos poderia requerer que eu mudasse de vida? – Alguém poderia pensar.

A maioria dos descrentes não são conservadores e, portanto, desde que você cumpra com esses deveres comuns de cidadão como pagar suas contas, não fazer gato de energia na sua casa, e cumprir a lei do país nos aspectos mais gerais, sua mensagem não será desqualificada.

Tudo também depende de qual é o grupo que você deseja alcançar e onde você está inserido. Se você é um skatista e deseja iniciar um trabalho de evangelismo entre eles, não precisa se preocupar em tirar o seu alargador da orelha, eles não irão se escandalizar com isso. Ao contrário, talvez manter um visual parecido com o deles lhe abra portas para pregação do Evangelho. Ainda que esse método possa trazer falatório de outros setores da sociedade, o que importa é que almas estarão sendo salvas!

O próprio Senhor Jesus, sendo homem solteiro e novo, estando sozinho conversou com a mulher samaritana, que tinha fama de ser a pecadora da cidade, ao ponto de os seus próprios discípulos se admirarem (cf. Jo 4.27). Se Jesus tivesse posto os usos e costumes acima do amor, aquela alma perdida provavelmente estaria hoje no inferno. Agora pare para pensar: quantos outros não são jogados no inferno pela igreja para que essa possa preservar a própria imagem, com a desculpa de ter que ser luz e sal na Terra?

Se, porém, você estiver inserido entre os descrentes mais conservadores – fora do meio religioso eles são minoria, mas existem – prepare-se para tirar qualquer tipo de adereço, compre roupas sociais, afine o seu linguajar para um vocabulário mais formal e talvez assim eles lhe ouçam.

Enfim, no que se refere a abrir mão de liberdades para o bem da propagação do Evangelho, sigamos o exemplo de Paulo:

“Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” (1 Co 9.20-22).